sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Texto muito interessante, pra quem ainda não viu!


Texto da professora Telma Gimenez :

O Raloin é nosso?

Importada principalmente pelas escolas de inglês, a ideia de comemorar o “Halloween” tem ganhado corpo nos últimos anos. Neste dia 31 de outubro muitas crianças e adolescentes serão convidados a mergulhar nesse universo, criando a impressão de que estão nos Estados Unidos, celebrando com fantasias e abóboras uma data sobre a qual pouco conhec
em. Os mais convencidos ficarão frustrados que seus vizinhos não terão doces para lhes dar ao perguntarem “trick or treat?”.
Esse fenômeno que na sua ampla disseminação se vincula fortemente ao ensino de inglês, revela também as ligações entre essa língua e globalização cultural. Na discussão com meus alunos, encontro respostas favoráveis à prática, com alegações de que se trata de algo divertido, do gosto dos alunos e, aparentemente, uma brincadeira que reforça a motivação para o aprendizado daquela língua.
Embora reconheça que para alguns pode ser divertido vestir-se de bruxa e sair assustando gente na rua, o reforço da imagem do inglês aos Estados Unidos não colabora para um movimento justamente contrário, que vem sendo alimentado pelas discussões sobre o inglês como língua de alcance internacional. Nessa perspectiva, o aprendizado toma como referência não um povo específico, mas falantes dos mais diversos países que também estão aprendendo inglês para comunicar-se em escala ampliada. Este seria um dos motivos pelos quais seria recomendável que professores de inglês não fossem os encorajadores dessas iniciativas.
Ao que parece, essa celebração aqui (e, diga-se de passagem, em várias partes do mundo) pode ser entendida como mais uma das consequências da globalização cultural, proporcionada pelos fluxos comunicacionais na era da internet. Esse movimento, porém, longe de se dar em todas as direções, parte de um país específico e toma forma local de maneira acrítica. Seria surpreendente se os alunos das escolas de inglês fossem instigados a analisar os motivos pelos quais celebram “Halloween” e não qualquer outro aspecto folclórico de países cujo povo também fala inglês, como a Irlanda. Ou mesmo de qualquer país do mundo, uma vez que na atualidade há falantes proficientes em várias partes do planeta.
Talvez ainda seja cedo para avaliarmos os sentidos que a prática instituída nas escolas de inglês terão no futuro, se serão transformados e se, num processo antropofágico, nela estará incluído o Saci, devolvendo aos norte-americanos uma versão brasileira da festa. Seria uma forma de sincretismo que o projeto de lei que institui o 31 de outubro como o Dia do Saci poderia sugerir. 
No momento, o “Halloween” parece ser apenas reflexo da subserviência cultural e um apego à visão do inglês como pertencente a um povo específico. Preocupante mesmo vai ser se começarmos a celebrar o 4 de julho.

2 comentários:

  1. como ilustrado num dos textos de Moita-Lopes, é preciso ter consciência critica ao ensinar língua inglesa... Em tempos de discussão sobre inglês como língua franca ainda tem gente presa ao colonialismo cultural

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  2. Como alunos/professores de língua inglesa temos o papel de conscientizarmos a todos, seja na escola, na igreja, em casa, com os amigos.

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